terça-feira, 23 de setembro de 2008

Comer, beber e conversar com os amigos em completa escuridão. Essa é a experiência de quem vai ao restaurante "blindekuh", em Basiléia ou em Zurique.


Os garçons são cegos e os clientes ficam mais atentos aos seus outros sentidos: tato, olfato, paladar e audição.O nome vem da brincadeira de vedar os olhos e movimentar-se no escuro – para os alemães uma vaca cega e para os brasileiros, cabra cega.A idéia de criar um espaço como esse surgiu em 1998, quando um grupo trabalhou numa instalação no Museu de Design de Zurique, "Dialog im Dunkeln".Logo a experiência saiu dos guias de museus e entrou para o roteiro das cidades. Primeiro em Zurique, em 1999, e depois em Basiléia, em 2005. "A idéia é promover a percepção dos outros sentidos, além de abrir espaço de trabalho para deficientes visuais", explica Sonja Hohgraefe, assessora do restaurante em Basiléia.


Procedimentos a serem seguidos


Na entrada, os clientes devem deixar bolsas, casacos, celulares – e outros aparelhos luminosos - num armário com chave. O costume de pendurar objetos nos encostos das cadeiras não é adequado ao ambiente: as coisas podem cair e atrapalhar os garçons que circulam entre as mesas.É também na recepção – e não à mesa – que os visitantes devem escolher os pratos e as bebidas da noite. Na hora de decidir-se, é aconselhável levar em conta o fato de que o prato será degustado no escuro: nem sempre é fácil comer um frango ou mesmo algumas folhas de alface sem ver.Como o jantar foge da rotina, os clientes são orientados para seguirem alguns procedimentos. Caso alguém se sinta realmente mal, deve chamar o garçom ou garçonete que o atende. Nunca deve levantar-se sozinho. Nem para ir ao banheiro: o atendente leva o cliente até a parte iluminada, onde fica a toalete.


Garçom é quem chama o cliente


No blindekuh, os clientes é que são chamados pelo garçom. Eles buscam o grupo na recepção, pedem que as pessoas se mantenham em fila e levam os clientes à mesa. Cada uma tem oito lugares. Em Basiléia, o restaurante recebe até 100 pessoas, em Zurique, 70.Os primeiros momentos são difíceis. Além das conversas dos visitantes, ouve-se, vez ou outra, como em qualquer restaurante, a queda de um copo ou de uma garrafa. Mas o sobressalto é maior no escuro."No começo fiquei um pouco assustada porque não tinha controle da situação e cheguei a rir de nervoso, mas depois as coisas foram se acomodando", diz Larissa Goldstein.Ela foi com um grupo de amigos ao restaurante e gostou da experiência. "Fiquei impressionada como a garçonete servia sem errar o que cada um pedia", lembra-se.

Outra forma de ver o mundo


Algumas regras de etiqueta ganham mais sentido e devem ser seguidas – mesmo que ninguém esteja olhando. A de colocar o guardanapo sobre o colo, por exemplo, é uma delas. O procedimento pode evitar muitos incidentes desagradáveis, como o de sair com a roupa toda manchada de comida. Outras podem ser ignoradas. É inevitável usar as mãos para pegar algum alimento que não pára no garfo.A cada semana o restaurante oferece um cardápio diferente, com três opções de entradas, pratos principais (carne, peixe e vegetariano) e sobremesas. A comida é boa e o ambiente propicia a degustação, já que se percebe mais o paladar e o aroma dos pratos.Mas é preciso concentrar-se para que o garfo chegue à boca com a comida desejada. Por isso, um jantar pode demorar um pouco mais ... mas ninguém vai reparar que você está demorando para comer - só a garçonete. O restaurante promove também atividades culturais, sobretudo concertos musiciais.Não há sequer um ponto luminoso no ambiente. Depois de algum tempo, acostuma-se com o escuro e percebe-se o movimento dos garçons perto das mesas, aromas de pratos e até mesmo a respiração mais ofegante ou o silêncio de uma pessoa do grupo – uma outra forma de ver o mundo.swissinfo, Lourdes Sola, Basiléia

A ADAPTAÇÃO


O século XXI nos trouxe muitas coisas esquisitas e bizarras, entre elas podemos citar por exemplo uma empresa que cobra quase 20 mil reais para um jantarem em uma mesa levantado por um guindaste.Mas não é só isso. Como se já não bastasse, um restaurante brasileiro seguiu outra moda européia e trouxe para cá o jantar às escuras. Em São Paulo, clientes não usam nada de suas visões para que se possa levar ao extremo a sensibilidade do olfato e do paladar.